Economitos

Portuguese translation of A New Economy.

Ruud Sies / Rotterdam, Netherlands

This article is available in:

O pensamento econômico neoclássico deve a sua sobrevivência em grande parte aos acadêmicos das universidades, que o mantêm polido, padronizado e protegido para a próxima geração. Esse envolvimento vai além dos departamentos de economia. As universidades tendem a dividir as disciplinas em especialidades minuciosas e têm tentado, tradicionalmente, mantê-las separadas, apesar de alguns sinais de que isso possa estar mudando. De qualquer modo, as decisões econômicas afetam grande parte dos aspectos da vida, de modo que qualquer indivíduo deve ao menos ter opiniões a seu respeito.

Algumas questões pendentes:

O que o departamento de física pensa a respeito das idéias econômicas mascaradas como leis da natureza?

Os departamentos de humanidades concordam com a estória de que a sociedade é composta de indivíduos que agem independentemente? Se discordam, como isso se reflete na educação dos futuros empresários?

O departamento de matemática considera viáveis os tipos de modelos usados nas aulas de economia? Hipóteses como a existência de estabilidade são plausíveis?

O que os engenheiros mecânicos pensam a respeito das margens de segurança utilizadas pelos “engenheiros de finanças”?

O departamento de antropologia tem alguma objeção à definição do Homo Economicus?

Os sociólogos concordam que as sociedades sempre se comportam racionalmente? As ferramentas neoclássicas fazem sentido em uma sociedade cada vez mais pautada pelas redes pessoais, na qual um dos bens mais valiosos – informação – pode ser distribuído a um custo quase nulo?

Os cientistas políticos têm alguma certeza de que a ciência econômica é uma disciplina politicamente neutra?

Os historiadores estão convencidos de que a economia neoclássica é uma ciência objetiva, e não um artefato cultural moldado por um certo período histórico? Qual será o impacto da crescente participação feminina no consumo? E dos países não ocidentais, cujas idéias e agendas políticas e econômicas são distintas?

Os ecologistas consideram que o ambiente é tratado de forma suficientemente séria nos livros didáticos de economia? Se eles acreditam seriamente que corremos o risco de uma crise ambiental profunda e ameaçadora, as aulas de introdução à economia em sua instituição contribuem para aumentar ou diminuir esse risco?

O que o departamento de psicologia pensa a respeito da definição de utilidade, ou da economia da felicidade?

Os filósofos estão de acordo que os mercados são capazes de tomar decisões éticas?

E, finalmente, qual o posicionamento de instituições de elite como a Universidade Harvard, a Universidade de Oxford, o Instituto de Tecnologia de Massachussetts ou o Instituto de Tecnologia da Califórnia sobre o fato de que, em 2007, vinte ou trinta por cento (talvez ainda mais que isso) dos seus graduados foram imediatamente trabalhar no setor financeiro? Estariam estas instituições sendo utilizadas como filtros para selecionar estudantes talentosos para essa área improdutiva, cujos salários são demasiadamente altos? Se esse é o caso, não deveriam estas universidades ao menos tentar revisar o seu ensino para refletir melhor novas teorias e abordagens, sem mencionar a ética?

Enquanto os departamentos nas universidades não quebrarem as divisões artificiais que separam suas disciplinas, o piano lógico neoclássico continuará intacto. A maior esperança de mudança provavelmente não vem das universidades, mas daqueles que têm mais em jogo: os estudantes. São eles quem têm que engolir essa fábula econômica. Se resolverem não aceitá-la, assim será.

Uma desculpa freqüente para a falta de progresso na ciência econômica é que o meio acadêmico muda lentamente. Mas isso não é, de forma alguma, a verdade. Nada de mais acontece por um longo tempo, mas quando se inicia a mudança, ela frequentemente é rápida e violenta: como um terremoto... ou um colapso financeiro. No século passado, a física foi completamente reescrita no intervalo de alguns anos. Avanços tecnológicos recentes como o projeto genoma humano revolucionaram a biologia.

Então, estudantes, é hora da decisão. Vocês vivem onde muitos acreditam ser uma encruzilhada na história. Vocês já viram vários gráficos com forte inclinação ascendente, como um salto para o céu: população humana, produto interno bruto, extinção das espécies, emissões de carbono, desigualdade, escassez de recursos. Vocês sabem que algo tem que acontecer. Vocês têm uma idéia de que o preço não é justo. Talvez até suspeitem que, se a economia mundial realmente é um esquema Ponzi, vocês ou seus filhos chegaram ao jogo um pouco tarde.

Vocês se encontram em uma bifurcação na estrada. Podem seguir o caminho ortodoxo – e correr o risco de terminar com uma formação tão impressionante como um diploma em ideologia Marxista logo após a queda do Muro de Berlim. Ou podem arriscar uma mudança de regime fazendo-se ouvir, questionando seus professores, sendo abertos a idéias disruptivas e atuando, de forma geral, como agentes de mudança.

Vocês podem insistir que a economia é um sistema complexo, dinâmico, entrelaçado – e exigir as ferramentas para entendê-la.

Vocês podem mostrar que a economia é injusta, instável e insustentável – e exigir as habilidades para curá-la.

Vocês podem anunciar aos oráculos que eles falharam.

Vocês podem entrar na máquina e quebrá-la.

E então podem fazer algo novo.

Uma nova economia:

É claro que é arriscado seguir esse caminho. Mas não mais arriscado que o caminho escolhido por Jevons, Walras e Pareto, intrusos no pensamento econômico quando criaram a escola neoclássica.

Uma teoria durar 150 anos é um feito prodigioso; sua sobrevida por mais uma década será um desastre. Talvez tenha sido a estória correta em um dado momento histórico, ou talvez fosse a estória que se queria escutar naquele instante, mas o fato é que sua sobrevida foi mais longa que sua utilidade.

A economia mundial reagiu razoavelmente bem à crise financeira na maioria dos lugares. Os mercados de ações reverteram boa parte das perdas. Os níveis de desemprego aparentemente se estabilizaram, assim como o mercado imobiliário nos Estados Unidos. Os lucros dos bancos se recuperaram. No entanto, no momento em que este texto é escrito, a população das abelhas continua em declínio. Há menos óleo no solo e mais carbono no céu. A dívida do setor privado foi substituída pela dívida do setor público, e o fantasma da moratória já assombra alguns países. O setor financeiro está mais concentrado do que antes da crise. Os problemas reais não foram embora, apenas se intensificaram.

Novas idéias econômicas, desenvolvidas por uma gama de cientistas, pensadores e profissionais da área, estão florescendo profusamente. Suas teorias podem parecer escassas e desconectadas, mas são parte de um movimento semi-coerente. Em vez de encarar a economia como uma máquina determinística e eficiente que funciona por si só, eles a enxergam como algo vivo que podemos influenciar conscientemente, para melhor ou pior.

A economia mundial chegou à maioridade, e os antigos mitos estão perdendo seu poder. A nova estória que vislumbramos não é simples nem particularmente agradável - somos menos racionais ou eficientes ou justos ou bons nessa versão. A verdade é que não somos todos super-heróis com a habilidade de antecipar o futuro distante e tomar decisões perfeitas (o que é uma pena, já que esses poderes seriam bem úteis nesse momento).

Nunca seremos capazes de criar modelos perfeitos para a economia ou eliminar a chance de outro desastre financeiro. Mas estamos vivendo numa bolha e precisamos enfrentar a nossa dívida. Sou avesso a previsões, mas me parece que dinheiro não será a causa do próximo grande colapso. Ele não será desencadeado por banqueiros ou matemáticos. Será originado de algo muito mais real. Temos uma linha de crédito com o resto do planeta, e ela está no vermelho. Cedo ou tarde teremos que pagar a conta. Não seremos capazes de resolver o problema com crescimento da economia ou fazendo horas extras. Não podemos lavar as mãos e tirar o corpo fora. É nossa casa.

Precisamos de regras domésticas. Precisamos de uma nova ciência econômica.

Extraído de Economyths: Ten Ways Economics Gets it Wrong, porDavid Orrell. Orrell obteve seu doutorado pela Universidade de Oxford. Livros de sua autoria incluem Apollo’s Arrow: The Science of Prediction e Future of Everything, além do ainda não lançado Introducing Economics: A Graphic Guide (com gráficos de autoria de Borin Van Loon). É possível conhecer seu trabalho através do sítio davidorrell.com.

Tradução para o português: Brigades Traductores[email protected]