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De Verde Para Azul

Portuguese translation of "From Green to Blue"

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Nossa derrota em Copenhagen representa um momento de mudança para o ativismo. O encontro foi, no final das contas, um gesto nostálgico, uma última tentativa de reviver aqueles promissores dias de 1999 quando enxames de pessoas trancaram as ruas em Seattle, EUA. Mas a última década viu o movimento alterglobalização se tornar cada vez mais previsível e pacificado. E enquanto ficamos pensando se nossas fraquezas nasceram de deficiências organizativas ou pelo fato de de não conseguir se manter no topo das mais novas tecnologias ativistas, não percebemos as verdadeiras mudanças que ocorreram bem diante de nós. O fato é que o movimento verde foi apropriado pelas elites. Se o ativismo quer manter sua força de resistência, ele deve ficar azul .

Desde que o ex-vice presidente dos Estados Unidos, Al Gore, virou o garoto propaganda do movimento das mudanças climáticas, o movimento ambientalista perdeu seu momento na História. Velhos inimigos – burocratas e tecnocratas, capitalistas e industrialistas – tomaram nossa rebelião e a transformaram em um projeto de interesse próprio: um mundo capitalista controlado. Os objetivos da Batalha de Seattle era interromper o fluxo do Capital e mostrar aos grandes banqueiros que nós sabíamos dos seus encontros secretos e estávamos revoltados. Mas em Copenhagen, no entanto, nos tornamos algo como animadores de torcida. Todos concordaram que as mudanças climáticas são uma grande ameaça e devemos fazer algo para diminuí-las. Ao ouvir figurões repetirem clichês sobre a urgência da situação, deixamos o movimento cair nas mãos deles. Eles fizeram de conta que ainda estavam com medo de nossas faixas e gritos, até prenderam alguns de nós só para se divertir, mas a piada era nós mesmos.

Com os capitalistas controlando o movimento verde, ditar acordos globais e definir quais são as verdadeiras projeções para o futuro da humanidade, este nunca pareceu tão sem esperança. Alguns levantaram uma preocupação realista de que as mudanças climáticas serão utilizadas para justificar maneiras cada vez mais autoritárias de garantir a continuidade do consumismo. Outros já sugeriram que a Ecologia será o novo ópio das massas: uma narrativa unificadora que, se usada da maneira correta, avalizará comportamentos totalitários e corporativos. As mesmas forças que nos trouxeram aos limites da catástrofe oportunamente se apropriaram das mudanças climáticas. Os capitalistas as adoram porque abriram um novo mercado: o de produtos “verdes”. E o Estado ama este clima de catástrofe porque uma natureza esquizofrênica é uma espécie de terrorista mais moderno e melhorado e – como pareceu em Nova Orleans, nos EUA – um policiamento militarizado se fará necessário.

Em vez de tentar ressuscitar o movimento verde, é hora de seguir em frente. Lembremos que nossa preocupação não dizia respeito apenas ao meio-ambiente físico. Por exemplo, o livro Primavera Silenciosa, de Rachel Carson, que muitos consideram um dos textos essenciais do movimento ambientalista, começa com um conto intitulado “Uma Fábula para o Amanhã”, no qual uma cidadezinha rural e idealizada sucumbe a uma maldição. A rica biodiversidade deste Eden imaginário desaparece e o silêncio da morte reina. A prosa da autora sugere que espíritos trapaceiros e deuses malvados são os culpados. Mas, no final da história, Carson vai da fantasia para a ciência: “Nenhuma bruxaria ou ação inimiga silenciou o renascimento da vida neste mundo doente”. Ela conclui: “As próprias pessoas o fizeram”.

Em seguida, a autroa passa a falar do acúmulo de poluentes em nosso ambiente físico, isolando o ambientalismo dentro da ciência, mas devemos indagar se havia um diferente caminho a seguir a partir do conto. E se Carson tivesse falado sobre como o desaparecimento dos pássaros veio acompanhado pela aparição de televisões em todas as casas? E se ela fizesse uma conexão entre a perda de biodiversidade e a riqueza da infodiversidade? Ou a queda da vida natural diante do aumento da vida anunciada em propagandas e outdoors? Para fazer isso, seria necessária uma nova visão de mundo: uma visão triste que reconhece a interconexão entre poluição mental e degradação ambiental, violação espiritual e extinções reais.

O movimento verde falhou devido ao excesso de ênfase em uma concepção materialista, secular do ativismo. Tentou mudar o mundo sem confrontar a multimilionária indústria da propaganda que influencia nossos desejos e distorce nossa imaginação. É hora de mudar o movimento verde para o azul, de nos entregarmos ao trabalho de construir uma inssurreição do meio-ambiente mental. Acabar com o consumismo, e ter a coragem de limpar nosso meio-ambiente mental tomando de volta o controle dos espaçso públicos, é o único caminho para desviar da catástrofe iminente.

Micah White é editor contributivo da Adbustesrs e ativista independente. Este artigo foi tirado do livro que ele está escrevendo sobre o futuro do ativismo. Ele reside em Berkely, California, nos Estados Unidos. www.micahmwhite.com

Adbusters 111 Cover

On Newsstands December 3

At last we’re in Winter. It’s the year 2047. A worn scrapbook from the future arrives in your lap. It offers a stunning global vision, a warning to the next generations, a repository of practical wisdom, and an invaluable roadmap which you need to navigate the dark times, and the opportunities, which lie ahead.

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Comments on the article “De Verde Para Azul”

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tapiocadeoliveira

Great to read some culture jamming in portuguese. I hope all eyes turn toward Brazil the next year, in Rio92+20, because the battle will be tough with so many giant defenders of the agrobusiness here.

tapiocadeoliveira

Great to read some culture jamming in portuguese. I hope all eyes turn toward Brazil the next year, in Rio92+20, because the battle will be tough with so many giant defenders of the agrobusiness here.

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